Checagem

Checagem de fatos em eleições municipais — rotina de uma mesa

Com uma equipe de quatro pessoas, um veículo mineiro valida dezenas de conteúdos por semana durante a pré-campanha. A Pauta acompanhou dois dias de plantão.

Atualizado em 7 de junho de 2026: incluída nota sobre parceria com TSE para acesso a dados de candidaturas.

Ilustração de checagem de fatos

São 8h15 de uma terça-feira de junho e a planilha da mesa de checagem já tem 23 linhas. Cada linha é uma denúncia, um vídeo encaminhado por leitor ou um print capturado de grupo de WhatsApp. Metade será descartada em minutos; o restante exige ligação, busca reversa de imagem ou consulta a base de dados eleitorais.

A rotina descrita aqui é de um veículo digital de Belo Horizonte com equipe fixa de verificação desde 2020. Com as eleições municipais de outubro se aproximando, o volume triplicou em relação ao mês anterior — padrão que se repete em todo ciclo eleitoral.

Quem compõe a mesa

Quatro profissionais: dois jornalistas com experiência em política local, uma designer que domina ferramentas de metadados de imagem e um estagiário de comunicação que monitora redes. Não há plantão 24h; o expediente vai das 8h às 20h, com editor de plantão noturno apenas para conteúdos que explodem após as 18h.

A coordenadora, Helena Rocha, explica o critério de prioridade: “Primeiro o que pode influenciar voto ou incitar violência. Depois o que viralizou acima de 50 mil visualizações na região metropolitana.” Conteúdos com alcance menor entram na fila se tiverem indício de manipulação grave — deepfake, áudio montado, estatística inventada.

O fluxo de uma checagem

Um vídeo chega pelo formulário do site: suposto candidato a prefeito em cidade da grande BH seria flagrado em suposta reunião com miliciano. O passo a passo:

  • Verificar metadados e data de publicação original (não a do encaminhamento)
  • Busca reversa: a imagem já circulou em outro contexto?
  • Contato com assessoria do candidato e, se necessário, com a Polícia Civil
  • Consulta ao repositório de candidaturas do TSE para confirmar datas e locais
  • Publicação com selo: verdadeiro, falso, fora de contexto ou inconclusivo

Neste caso, a busca reversa mostrou que o vídeo era de 2019, de outro estado, com legenda falsa sobreposta. Tempo total: 47 minutos. O texto publicado cita fontes e inclui o vídeo original para comparação.

Ferramentas do dia a dia

A mesa usa InVID para análise de vídeo, FotoForensics para imagens e planilhas compartilhadas para rastrear versões de um mesmo boato. Para áudio, recorrem a especialistas externos quando suspeitam de clonagem de voz — serviço pago, usado em média duas vezes por mês.

WhatsApp continua sendo o principal canal de disseminação de conteúdo falso na região, à frente de TikTok e Instagram. “O print chega sem link, sem data. Nosso trabalho é reconstruir a cadeia”, diz o jornalista Pedro Alencar.

Pressão e limites

Assessorias de campanha ligam pedindo “prioridade” para checar conteúdo que prejudica o adversário. A resposta padrão: todos entram na mesma fila. Conteúdo patrocinado por campanha não é verificado sem identificação clara de quem solicitou.

A equipe admite que não dá para checar tudo. Em dia de pico, até 40% das denúncias ficam sem resposta publicada — mas são arquivadas com nota interna para consulta futura. “Melhor dizer que não verificamos a tempo do que publicar com pressa e errar”, resume Helena.

Parceria com TSE

Desde maio de 2026, o veículo tem acesso antecipado a dados de registro de candidaturas via API do Tribunal Superior Eleitoral — parceria que outros 12 veículos regionais também firmaram. Isso acelerou checagens sobre ficha criminal e histórico de candidaturas anteriores.

O que o leitor pode fazer

A mesa recebe mais denúncias do que consegue processar, mas orienta quem envia material: inclua link original, data de recebimento e contexto. Prints isolados atrasam o trabalho. E desconfie de conteúdo que pede compartilhamento urgente — é tática clássica de desinformação.

Para veículos menores que querem montar mesa própria, o conselho é começar com protocolo escrito e parceria com universidade local. “Dois jornalistas e um professor de estatística já resolvem 70% do que aparece”, avalia Larissa Fontes, autora desta reportagem e ex-coordenadora de checagem em eleição estadual.